Ao completar seis anos de vigência, a Lei de Reponsabilidade Fiscal (LRF) recebeu semana passada no Congresso a primeira proposta significativa de mudança. Por meio da Comissão de Legislação Participativa, o Fórum Brasil de Orçamento (FBO), rede formada por quase 50 entidades da sociedade civil que inclui a
CAPITAL SOCIAL INSTITUTO DE PESQUISA, apresentou ao Parlamento projeto de lei que visa incluir na LRF também mecanismos e normas que garantam por parte do poder público a prática da responsabilidade social. A idéia das organizações é equilibrar a relação desigual existente hoje na gestão dos recursos públicos entre a destinação financeira, que envolve a amortização e pagamento de serviços e juros da dívida pública, e a social, que inclui políticas públicas voltadas à garantia dos direitos consagrados na Constituição Federal.
De acordo com Eliana Graça, do Instituto Nacional de Estudos Sócio-Econômicos (Inesc), que assinou formalmente a proposta, o PL tem como objetivo permitir o aumento de gastos sociais através da flexibilização das restrições impostas pela LRF, como o limite de 50% da receita líquida corrente para a União para pagamento de salários. “Desde que seja para atender as metas sociais, este limite poderia ser flexibilizado”, explica Graça.
Para a deputada Luiza Erundina (PSB-SP), escolhida relatora da matéria, a proposta visa estabelecer garantias que efetivem uma cultura de responsabilidade na gestão das políticas sociais. “A proposta não é afrouxar o controle fiscal, mas realizar uma inversão de prioridades. Equilíbrio financeiro e fiscal têm que vir com desenvolvimento social. O desenvolvimento envolve crescimento econômico, mas deve prever também a melhoria da qualidade de vida das pessoas”, comenta Erundina. No documento de apresentação do PL, os autores justificam a proposta por ser a LRF um dos pilares do atual modelo econômico, que vem provocando “cortes inadmissíveis nas despesas públicas essenciais para a sobrevivência da maioria da população, ao mesmo tempo em que tem elevado os recursos destinados ao pagamento das dívidas – interna e externa – beneficiando diretamente banqueiros e rentistas”.
A posição é endossada por estudo do Conselho Nacional de Municípios (CNM) citado no mesmo documento, que identificou em várias prefeituras sacrifícios em importantes áreas sociais, como saúde, educação, habitação, cultura. “Para a CNM, o problema é que no Brasil se disseminou uma cultura de que só interessa o fiscal em detrimento do social. A Confederação entende que é preciso mudar a LRF tanto para ampliar os controles fiscais como para harmonizar a responsabilidade na área fiscal com a responsabilidade social”, diz o documento. Outra pesquisa, do economista Amir Khair, verificou que mesmo com os esforços da LRF a dívida dos estados vem crescendo e hoje já beira o descontrole. Segundo o estudo, o chamado "patrimônio a descoberto" dos estados cresceu de R$ 35,2 bilhões para R$ 143,821 bilhões, de 2000 a 2004. Em resumo, este quadro mostra que este ente da federação não terá recursos para quitar seus compromissos, mesmo com todos os ativos que possui.
Na avaliação de Eliana, o mesmo acontece com a União. Apesar de todo o esforço e da economia, que retira recursos das áreas sociais, a relação entre a dívida e o Produto Interno Bruto (PIB) praticamente não variou entre 2004 e 2005 (caiu de 51,7% para 51,6%), apesar de o superávit primário praticado ter sofrido acréscimo de 4,59% do PIB para 4,84%, valores bem acima do índice de 4,25% definido pelas últimas Leis de Diretrizes Orçamentárias. Em 2005, esse superávit acumulou R$ 55,7 bilhões. A desproporção fica explícita se este montante for comparado com a lista de gastos sociais (que inclui áreas como saúde, educação, habitação e saneamento) para a qual foram destinados no mesmo ano R$ 8 bilhões. Já o valor pago em amortizações e juros da dívida chegou a R$ 139 bilhões ano passado. Se observada uma série histórica mais longa, é possível perceber que apesar do aumento da economia e dos pagamentos de juros da dívida, ela cresceu de forma considerável, saindo de R$ 563 bilhões em 2000 para pouco mais de R$ 1 trilhão em 2005.
Se a dívida astronômica recebeu especial atenção do Estado brasileiro nos últimos 20 anos, a proposta tem como objetivo garantir o mesmo tratamento do Estado para a dívida social. Um dos propósitos do projeto é atrelar as chamadas "metas sociais" aos instrumentos do ciclo orçamentário, como o Plano Plurianual (PPA), a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e a Lei Orçamentária Anual (LOA). Assim, busca-se a mesma estrutura e o mesmo planejamento existentes para a administração da dívida pública (que inclui até uma secretaria específica no Ministério da Fazenda, a Secretaria do Tesouro Nacional).
O projeto cria dispositivos para que a construção, o monitoramento e a avaliação de todo o ciclo orçamentário sejam feitos de forma transparente e democrática. No plano federal, isso se daria pela criação de um conselho formado por entidades da sociedade civil e por representantes dos conselhos já existentes hoje no âmbito do Executivo. Na avaliação do FBO, a forma como são decididas as peças orçamentárias hoje sobrevaloriza a margem de atuação do Parlamento e alija a população, que não consegue acompanhar a definição das destinações dos recursos nem a execução por parte do Executivo.