A inclusão dos grupos considerados minorias — compostos por afrodescendentes, descendentes de índios, portadores de deficiência e mulheres, entre outros — ganham cada vez mais espaço nas políticas de responsabilidade social das principais organizações não-governamentais (ONGs) do País e das grandes empresas da iniciativa privada. É o que mostra a quarta rodada de pesquisa DCI com 18 dirigentes de entidades ligadas ao Terceiro Setor.
De acordo com os administradores das entidades entrevistadas, as organizações Nestlé , Unilever , Unimed e Natura estão entre as principais parceiras dos seus projetos sociais.
A ONG Sorri-Brasil , de Barueri, na Grande São Paulo, é um exemplo de entidade sem fins lucrativos que trabalha em conjunto com empresas privadas. Uma das facetas do projeto da instituição é capacitar gestores de recursos humanos para que eles aprendam a selecionar e contratar deficientes para trabalhar nas empresas parceiras da entidade. Grandes empresas atuantes no País, como a brasileira Natura, estão entre as envolvidas nessas parcerias.
“Nossa entidade atua no desenvolvimento de projetos sociais que visam a promoção do trabalho e do emprego das pessoas portadoras de deficiência. O trabalho é feito por meio de cursos que desenvolvemos para a capacitação de diretores de recursos humanos das empresas parceiras”, explica Carmen Leite Ribeiro Bueno, superintendente da Sorri-Brasil.
Através dessa capacitação de gestores de recursos humanos, a entidade consegue se manter e promover outros projetos para portadores de deficiência.
Bolsa de estudoOutra entidade que trabalha no intuito de inserir as minorias no mercado de trabalho é a Associação Horizonte . A entidade oferece cursos de capacitação para jovens com até 17 anos. De acordo com a entidade, a Unimed é a empresa parceira do seu trabalho chamado “Projeto Horizontes”.
Segundo o professor e presidente da entidade, Gualtiero Piccoli, a empresa parceira doa cerca de R$ 4 mil a cada semestre para manter no curso um grupo de 20 mulheres da comunidade local.
“As mulheres que recebem nossa assistência têm aulas de comunicação, desenvolvimento pessoal, ética, cidadania, técnicas de venda e de atendimento ao cliente. Todas as participantes são cadastradas no banco de dados da empresa a que os médicos da Unimed têm acesso e podem contratá-las quando estiverem precisando de uma secretária, por exemplo”, afirma Piccoli.
Além da Unimed, a Associação Horizonte conta com o apoio da Universidade Anhembi Morumbi e do Ibmec São Paulo no projeto “Educação Superior In Company”. Esse é um programa de educação inclusiva e funciona através de uma bolsa de estudos para os deficientes.
Com esse acordo entre as universidades e a entidade, os estudantes pagam apenas R$ 200 pelos cursos. Se eles se saírem bem nos estudos e não tiverem faltas, o valor da mensalidade do curso pode custar menos, até R$ 50. “Essa é uma chance que os portadores de deficiência têm para mostrar seu valor e adquirir responsabilidades”, diz.
DireitosEnquanto algumas ONGs se esforçam para profissionalizar, educar e inserir as pessoas pertencentes aos grupos minoritários, o Centro de Direitos Humanos de Palmas (Cdhp) atua em prol do reconhecimento dos direitos do cidadão. Ou seja, oferece uma assessoria jurídica gratuita às pessoas da comunidade local.
O orçamento de R$ 70 mil anuais da entidade é proveniente do apoio de agências internacionais como a Organização Católica Alemã (Miserium), a Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase) e a Cáritas Brasileira , rede da Igreja Católica militante em questões sociais.
De acordo com Romeu Aloisio Feix, secretário-articulador da ONG, as verbas provenientes da iniciativa privada são poucas diante das problemáticas sociais que a entidade trata. “Precisamos de financiamento para a contratação de pessoas. É difícil encontrar voluntários. É necessário que a iniciativa privada financie os projetos do Centro-Oeste, pois os recursos das empresas acabam sendo mais direcionados para regiões do nordeste e do sul”, opina.
Apoio à mulher
As mulheres que sofrem com a violência doméstica, segundo especialistas, estão incluídas nas minorias. Diante dessa realidade, o Grupo Mulher Maravilha , localizado em Recife, tem atuado fortemente para amenizar a questão. O trabalho da instituição consiste em capacitar as mulheres das comunidades locais para que elas se tornem líderes sociais (promotoras legais) a fim de que repassem a outras mulheres os conhecimentos sobre os seus direitos.
Um exemplo de atuação do Grupo Mulher Maravilha é o trabalho realizado com as mulheres ligadas a comunidades quilombolas que trabalham no campo. Nesse projeto a ONG recebe o apoio do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), órgão do governo federal. O ministério envia cerca de R$ 60 mil ao ano à entidade para o desenvolvimento de projetos de capacitação de mulheres jovens.
A sócia fundadora do grupo, Maria de Lourdes Luna, observa que a violência contra a mulher vem aumentando em Recife, região onde a entidade atua. “De janeiro até agora, segundo estimativa da polícia militar de Recife, 100 mulheres morreram devido à violência doméstica. Estamos trabalhando para que esses números se reduzam. Nosso objetivo também é beneficiar um número cada vez maior de mulheres”, enfatiza. Com base nos dados levantados pela Pesquisa DCI, as empresas privadas têm prestado um indispensável apoio para que as ONGs consigam promover e divulgar os seus trabalhos em prol do desenvolvimento comunitário local. As entidades do chamado Terceiro Setor, muitas vezes, dependem dos recursos da iniciativa privada, sejam eles financeiros ou referentes a mão-de-obra (voluntária) para que seus projetos sejam mantidos e tenham continuidade.