6.6.06

Mudança exige maior atuação da sociedade

Para dar perspectivas a jovens que vivem em situação de vulnerabilidade social — de pobreza e sem oportunidades de emprego, e evitar que entrem na criminalidade, é preciso que a sociedade se mobilize e não espere uma rápida solução do Governo.
A opinião é de profissionais da Assistência Social, de organizações não-governamentais e de voluntários que não ficaram esperando uma ação do Poder Público e resolveram fazer algo pela juventude.

Para o assistente social e integrante do Fórum da Cidadania Maurício Zomignani, que já participou de projetos sociais na Cidade e atua há 19 anos no Centro de Referência Social da Zona Noroeste, a fragilidade do jovem pobre é imensa. Um dos motivos é que o desemprego alcança os níveis mais elevados na faixa etária entre os 16 e 24 anos.

‘‘Isso acontece exatamente quando o indivíduo está na adolescência, ou entrando na fase adulta, em que precisa transformar seus potenciais em realidade. É no trabalho que isso se faz, mas ele não consegue emprego’’, resume Zomignani.

Em sua opinião, como o Poder Público não consegue uma solução para o desemprego dos jovens, o problema volta para as mãos da sociedade. ‘‘É uma questão de sensibilidade. Há empresários que ficam esperando um programa do Governo de incentivo à contratação de jovens para ganhar benefícios fiscais’’, critica. ‘‘O empresário inteligente forma e capacita os jovens desde o primeiro emprego’’.
O assistente social acredita que outra forma da juventude mostrar e desenvolver seus potenciais é por meio da cultura e do esporte. Para isso, segundo ele, deve-se ampliar o número de locais de realização dessas atividades. ‘‘Quem tem o que realizar e oferecer para a sociedade, se preocupa com a ordem. Quem não tem, não se compromete com nada’’.

Incentivar a participação de jovens em atividades culturais também é tarefa da sociedade, de acordo com Zomignani. ‘‘As pessoas podem ser voluntárias, participar de programas assistenciais, patrocinar ONGs, fazer doações para o Fundo Municipal da Criança e do Adolescente. Não podemos ficar reféns da violência e esperar apenas que os efeitos sejam trabalhados’’.

Crime e violência
Mariana Montoro, diretora de Comunicação do Instituto Sou da Paz, que trabalha na entidade há mais de cinco anos, acredita que a minoria dos adolescentes em situação considerada de vulnerabilidade social ingressa no crime. ‘‘Isto porque eles tiveram outras oportunidades, optaram por elas e não entraram (na criminalidade)’’.
Esta estimativa, segundo ela, mostra que a violência entre os jovens tem solução. ‘‘Há diversas ONGs tentando construir uma relação diferente. Está nas nossas mãos. Podemos nos dedicar ao voluntariado’’, avalia.

Entretanto, para Mariana, a construção de um futuro sem violência também parte do comportamento de cada um. Ela afirmou que o brasileiro cultua a violência ao praticá-la ou aceitá-la. ‘‘Um indivíduo acha o tráfico um absurdo, mas compra drogas. Vai à boate, bebe e arruma briga. Fica horrorizado com os atentados praticados por facções criminosas, mas no trânsito, se irrita e sai do carro para bater em outro motorista’’.

Ela acredita que a violência decorre principalmente do jovem que não é ouvido. Já o crime é um problema originado na desigualdade social ‘‘com a qual não dá para conviver’’. De acordo com Mariana, sem oportunidades, o crime conquista.

Por este vínculo (da criminalidade com a desigualdade), cria-se um estereótipo. ‘‘Me incomoda ver que pensam na violência e no crime como algo da periferia. Com isso, as pessoas tendem a ficar em um papel cômodo’’.

Integrante da Ambienta, organização não-governamental que cria projetos de financiamento de habitação e orienta a população sobre seus direitos, a arquiteta Thaís Polydoro Ribeiro defende uma mudança sobre o que é ser voluntário.
Ela lembrou que a participação da sociedade é necessária diante de um mau-aproveitamento dos recursos financeiros que o governo dispõe. ‘‘No ano passado, pagamos R$ 140 bilhões pela dívida externa e investimos R$ 40 bilhões em política social. Investe-se muito mal’’.