3.3.06

Países vêem de forma diferente a atuação social das empresas

Embora a demanda na América Latina seja parecida, ações não devem ser padronizadas

Andrea Vialli de Estado de S. Paulo

Existem diferenças marcantes no modo como os latino-americanos percebem o movimento da responsabilidade social empresarial, o que representa um desafio para as multinacionais implementarem suas políticas sociais no continente.

É o que sustenta o estudo Líder Barômetro, realizado simultaneamente no Brasil e na Argentina, em novembro. No Brasil, 51% dos entrevistados concordam que as empresas fazem bom trabalho para construir uma sociedade melhor. Já na Argentina, esse porcentual cai para 8%.

"Uma das conclusões do estudo é de que embora as demandas sociais desses países sejam muito semelhantes, qualquer tentativa das empresas de implementar uma política padrão não será bem sucedida", afirma Fabián Echegaray, diretor do Instituto Market Analysis, que conduziu o estudo no Brasil. Aqui, foram ouvidos 115 líderes de opinião em dez segmentos específicos - políticos, mídia, intelectuais, ONGs, entre outros. Na Argentina, foram ouvidas 95 lideranças políticas, em levantamento feito pela empresa Mori Argentina.

O estudo aponta que os brasileiros são mais atentos ao tema - 91% demonstraram interesse em acompanhar o assunto, ante 37% dos argentinos. Também são mais otimistas em relação ao retorno do investimento social das empresas. Entre os argentinos, impera o ceticismo. "Eles têm menos expectativas em relação às empresas e interpretam a responsabilidade social mais como um esforço de marketing do que um compromisso com a sociedade", afirma Echegaray.

Os bancos e instituições financeiras, bem como as empresas de telecomunicações gozam de pouca simpatia entre os líderes de opinião dos dois países, que não vêem com bons olhos os lucros altos dos bancos e a falta de qualidade dos serviços na área de telefonia, após as privatizações nos dois países.

MATURIDADE

O interesse pelo assunto entre os líderes de opinião brasileiros sugere a maior maturidade do movimento de responsabilidade social no País, motivada pelo engajamento de entidades empresariais em torno do tema nos anos 90. "ONGs como o Instituto Ethos, a Fundação Abrinq e o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife) tem auxiliado as empresas a disseminar o conceito e colocá-lo em prática", explica Echegaray. Em ambos os países, no entanto, as empresas têm superado a mera filantropia e adotam programas mais consistentes de investimento social.

Para Echegaray, a consolidação da responsabilidade social no Brasil se reflete no mercado, em eventos como a criação do Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bovespa (ISE) e na formulação da norma internacional ISO 26000, que pretende ditar padrões para a atuação das empresas nesse campo.

A multinacional varejista C&A, há 30 anos no Brasil e há dez na Argentina, mantém diretrizes semelhantes para atuação social em ambos os países. "Nossa bandeira é contribuir para a melhoria da qualidade da educação tanto na Argentina como no Brasil", explica Paulo Castro, presidente do Instituto C&A, braço social da empresa. "A diferença é que aqui a ênfase é na educação infantil, de zero a seis anos, e na Argentina, o esforço é para conter a evasão escolar entre os adolescentes", explica.

A linha adotada pela empresa é não criar projetos sociais próprios, e sim apoiar os já existentes, com aporte financeiro ou apoio técnico. Em 2005, foram R$ 9 milhões investidos em 106 projetos no Brasil e estão previstos R$ 12,5 milhões para este ano. Curiosamente, os acionistas da C&A já mantinham investimentos sociais no Brasil desde a década de 50, antes mesmo do grupo fincar negócios no País.

A fabricante de eletroeletrônicos Philips, com sede na Holanda, mantém uma política de investimento social mundial que permite que cada subsidiária defina as linhas mestras de atuação. No caso da América Latina, os eixos escolhidos foram educação em diferentes vertentes - ambiental, prevenção a doenças e fortalecimento do ensino público.

"Cada País tem suas próprias demandas, embora os grandes temas sejam os mesmos como pobreza, desemprego e déficit na educação", diz Flávia Moraes, gerente de sustentabilidade para a América Latina da Philips.

A executiva vê diferenças claras no grau de maturidade da responsabilidade social nos diferentes países, o que acaba refletindo nas ações da empresa. Enquanto no Brasil a Philips atua com grande força em programas para a melhoria da escola pública, no México, por exemplo, o movimento é incipiente e as práticas assistencialistas são mais arraigadas.

"No México adotamos um modelo de parcerias com ONGs que atuam na área social, e um dos temas trabalhados é a violência doméstica", diz Flávia. No Chile, há ênfase em projetos na área cultural e na Argentina há mais ênfase em meio ambiente e inclusão digital.

O Estado de S.Paulo – Pág. B10