8.3.06

A atuação feminina no terceiro setor

Por que o universo das ações sociais é ocupado em sua maioria por mulheres?. Dos trabalhos de caridade nas igrejas às lideranças comunitárias, das várias formas de atuação voluntária à profissional no terceiro setor, as mulheres certamente ocupam uma posição de destaque quando o assunto é ação social. E, se a presença feminina não é um fato novo, o Dia Internacional da Mulher traz de volta ao primeiro plano uma antiga constatação: por que o universo das organizações sem fins lucrativos é ocupado em notável maioria por mulheres? Será que as mulheres são mais capazes ou têm mais afinidade com as questões éticas do mundo corporativo do que os homens?

No Instituto Pão de Açúcar, do Grupo Pão de Açúcar, por exemplo, 22 de um universo de 26 colaboradores são mulheres – uma ocupa cargo de direção, outra uma função gerencial e mais quatro posições de coordenação. E não é só lá: onde quer que as diferentes abordagens de responsabilidade social corporativa, em diferentes setores, tangenciem o mundo da ação social, as mulheres estão muito bem representadas, mesmo que nem sempre em proporções tão avassaladoras. Por que será?

Algumas características tidas como mais comuns nas mulheres do que nos homens – como a intuição, a habilidade com pessoas e a busca incessante pelo desenvolvimento das competências – podem ter dado uma contribuição para o "casamento" com os mundos do terceiro setor e da ação social. E o equilíbrio exigido para atender aos papéis exercidos no mercado de trabalho somados aos de mãe, esposa e dona de casa, pode ter ajudado as mulheres a desenvolver uma personalidade dinâmica, criativa, ousada e inovadora.

Teria então a mulher uma capacidade de superação que a tornaria uma força de trabalho importante para contextos de intermediação entre os objetivos pragmáticos da empresa mantenedora e os objetivos-fins da atuação social, trabalhando em um ambiente que raciocina ao mesmo tempo das duas formas? Rosangela Bacima Quilici, diretora-executiva do Instituto Pão de Açúcar e ela própria um exemplo desse tipo de profissional, vê a questão por esse ângulo. Mas ressalta: são as capacidades pessoais e intelectuais que fazem um bom líder, e estas independem do sexo do profissional.

Rebecca Raposo, que foi diretora-executiva do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife) e atualmente é gerente-geral do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente, ofereceu-nos um insight interessante em relação à questão. Rebecca apontou que é difícil relacionar a aptidão para trabalhar nas ações sociais da empresa ao sexo da pessoa, pois as condições psicológicas e bioquímicas para agir de forma eticamente consciente estão igualmente em todos, independentemente de diferenças de percepção. Ademais, quando se trata de liderança e postos de comando, a ética se redefine em termos de poder, conferindo ênfase adicional à questão de "para que o poder está servindo" (se para se manter no comando ou para alavancar a coletividade) e retirando peso do fato de que se trata de ação social. Pensando assim, de nada adianta ter essas qualidades mais tipicamente "femininas" na sensibilidade e no trato com as pessoas se elas não se traduzem em uma postura capaz de fazer o questionamento mais justo diante dos dilemas que se apresentam.

Mas será que é assim que o mercado nesse setor vê o público feminino, dotado de capacidades diferenciadas? Olhando para as organizações, o que se observa é que as aptidões femininas são valorizadas mais na produção do que na remuneração, reforçando a idéia de que há diferenças notáveis, mas também dando ensejo a um pouco de preconceito. Infelizmente, afirma Rebecca, é possível que as mulheres recebam em média um terço a menos que os homens nas mesmas funções.

Como um sinal de insatisfação mundial diante dessa histórica e injustificável discriminação, o Parlamento francês recentemente aprovou uma lei que pretende eliminar dentro de cinco anos as desigualdades salariais entre homens e mulheres, que chegam a 20% em média na terra da liberdade, igualdade e fraternidade. E no primeiro balanço, que deve ser realizado dentro de três anos, fica a possibilidade da adoção de sanções financeiras contra as empresas que não estiverem promovendo a igualdade salarial. Aqui no Brasil já se começa lentamente a se discutir essas questões, mas estamos longe de regular essa questão, relacionada à responsabilidade social, por meio do Estado.

Enquanto pensamos se as mulheres e os homens têm aptidões semelhantes ou diferentes para o mundo da ação social, torcemos e agimos para que essa discriminação seja superada.

(José Pascowitch - Diretor da consultoria Visão Sustentável (www.visaosustentavel.com.br). Com a colaboração do consultor José Pedro Fittipaldi e de Simone Saggioro)
Gazeta Mercantil – Artigos / Opinião – 07/03/2006 – Pág. A3